A Moeda

A luz do único poste na esquina piscava no mesmo ritmo da respiração de André. Ele recostou-se com a mão na lateral da barriga e reconheceu a dor da pancada. Gemeu baixo e apertou o botão do telefone com a esperança de uma resposta rápida.

A promessa de 2 minutos iluminou seu rosto abatido.

Sua respiração condensava no ar gelado tornando-o turvo ao redor do seu rosto e o efeito estroboscópio do poste o deixava tonto. André fechou os olhos e tentou respirar com mais calma. Estava tudo bem agora. Um gato atravessou a rua deserta. Para onde foram as pessoas? Teriam fugido quando tudo aconteceu?

Quando os faróis do carro se aproximaram, ele conferiu a placa e entrou no banco traseiro. Gemeu devagar com a dor na região do fígado e sentou-se.

– Boa noite. – Foi o motorista quem disse. – Sr. André?

- Sou eu. – Gaguejou e então gemeu. – Desculpe. Dois caras me assaltaram. Levaram minha carteira. Por sorte fiquei com o aparelho. – Disse, mostrando o celular.

- Sinto muito. - Disse o motorista enquanto partia com o carro.

- Não há porquê. Não é sua culpa.

- Forem eles que fizeram isso?

- Me deram um soco na barriga. Não pude me defender. Eles me abordaram, eu tentei reagir. Ele me puxou pelo braço, eu girei e já fui atingido... a gente vê em filmes mas não imagina como dói. Fiquei sem ar e caí. Mas tive sorte, eu acho.

- Sorte?

- O outro tinha uma faca.

- Hum... Deve ser importante pra você.

- Oi?

- O aparelho. Deve ser importante.

André ficou em silêncio e olhou para o celular em suas mãos.

- Como? – Balbuciou.

- Você não abriu mão dele, né... Assim... Me pareceu importante pra você. Foi assaltado e resistiu pelo celular?

- E-eu só não queria... Não sei... Tudo o que temos é importante, certo?

- Acredito que sim. – Disse o motorista - Algumas coisas mais que outras. – e passou uma marcha silenciosa.

André olhou em sua direção, mas a luz da rua não vencia os vidros escurecidos pelo filme e o motorista não movia a cabeça, apenas desviava os olhos para o retrovisor e, através do espelho, André não podia ver além das linhas dos olhos negros que se encaixavam abaixo de sobrancelhas finas e salientes de uma testa grosseiramente projetada.

Recostou-se na janela e sua respiração embaçava o vidro. Lá fora as luzes pareciam passar devagar, apesar da velocidade do carro. Seu braço que massageava sua barriga pesava. Sentiu-se cansado. O ar da noite parecia convidativo.

- Posso abrir a jane--

- Não! – Interrompeu o motorista. – Não... por favor. Posso ligar o ar... ou o aquecedor. Está calor ou frio?

André estranhou a pergunta.

- Frio. – Disse. – Frio, claro.

- Engraçado - O Motorista levou o dedo até o aquecedor e o regulou, não tirou os olhos do espelho. Seus dedos pareciam conhecer cada botão do carro. – Vamos esquentar as coisas, então. Num julgamento grosseiro, e peço desculpas por ele, achei que você estaria com calor.

- Jura?

- Sim... você parecia suado... enfim... Você lutou pelo que é seu, imagino.

- Isso. Mas ainda assim perdi meus documentos. A carteira.

- Creio que não precisará deles com urgência para o lugar que vai... – O motorista ergueu as sobrancelhas

- Acho que... bem, não. Vou descansar e resolver essas coisas depois, imagino.

- Perfeito! Quer descansar, finalmente? Posso apenas dirigir se isso...

- Não. Por favor. É bom falar com alguém. Ainda estou, bem, nervoso com a situação.

- Então, podemos conversar enquanto não chegamos. Sobre o que...

- Foi estranho, digo, eu reagi... eu realmente reagi.

- Eu sei. Por isso estamos aqui. Foi o motivo pelo qual eu vim, certo? – O Motorista parecia sorrir. Seus olhos pareceram sorrir para André através do espelho.

- Sim. Não é algo que eu achei que faria. Não é algo que pareça da minha natureza, você entende?

- Os que dizem que reagiriam são os que fogem, os que acham que fugirão são os que reagem. Nem sempre com eficiência. – Os olhos pararam de sorrir e se concentraram na pista.

- Não foi... eu... assim... eu estava parado, a rua não estava tão deserta. Um deles veio por trás de mim e o Segundo me abordou de frente com uma faca e pediu tudo o que eu tinha. Ele gritava, sem parar e avançou. Eu ergui as mãos, mas o outro, aquele atrás de mim, me puxou e me acertou.

O telefone tocou. André olhou para o seu colo, mas era o aparelho do motorista. Com um dedo ele atendeu lá na frente. Uma voz do outro lado chiou baixo demais para André ouvir, mas não para o condutor.

- Isso. Certo... eu estou com o... - Olhos fixos no espelho – André... Pelo que vejo a viagem dele será curta... Não. Não há motivos para isso. Estarei lá no horário combinado. - André desviou o olhar – Como sempre.

Os mesmos dedos magros desligaram o celular.

- Quer continuar?

- A-as ruas. Eu não conheço essas ruas. Que lugar? Ei... o que, na verdade...

- André? André!

O Passageiro olhou para o retrovisor. Os olhos do condutor estavam fixos nos seus.

- O que aconteceu depois?

- Eu entreguei tudo. Eles vasculharam meus bolsos. Não pude evitar.

- Menos o celular.

- S-sim. Menos isso. Segurei firme, era a única coisa que pude me agarrar, acho. Segurei com força, me deram outro soco na barriga, esse doeu muito mais... eu já estava machucado. Tentaram puxar de novo e foram embora...

- Certo, certo. Por isso o Uber. Faz sentido para mim agora.

- Como disse? Uber... Isso... você... Eu chamei você. Você é meu Uber, não?

- Essa geração e todo esse apego ao mundo digital. – O Motorista deu de ombros. – Eu sou um cara mais simples. Não que seja alheio à tecnologia, mas eu curto o romantismo das coisas feitas de forma mecânica, onde cada peça está ali para atacar uma próxima e fazê-la realizar sua tarefa e todas elas juntas executam uma função. Gosto de trens, por exemplo e barcos... amo velejar.

- Ei... para. Para o carro. Eu quero descer.

- Espere um pouco, tudo bem? Vocês estão sempre muito apressados. Até agora, até aqui quer tudo na hora? Sabe do que mais gosto de velejar? Sua pressa não faz a menor diferença para o vento. Os cavalos você pode esporear, os trens podem receber mais carvão e pressão e correr mais rápido. Mas ou os ventos estão a seu favor ou não. E se estiverem contra ou estiverem calmos, você terá que contorna-los ou aguardar. É preciso lidar com eles. – O motorista pigarreou um pouco e fez uma curva à direita - Pressa? O vento ri da sua pressa. O Leme exige uma determinação de quem o dirige, não apenas pela força que a água impõe, mas porque você precisa aceitar que está ali no meio do poder dos mares e dos ventos e é nada... é só algo que pode chegar onde quer ou não. E isso não depende de você.

André alcançou a maçaneta, O Motorista ativou a tranca rapidamente. A trava mexeu alguns milímetros, mas não levantou.

- Me deixa sair.

- Você não pode sair, amigo. Já estamos chegando.

- ABRE A PORTA, PORRA! – André sacudia a maçaneta, mas a porta não se movia. Lá fora ruas desconhecidas surgiam e iam embora. Ele chutou a porta, virou-se de lado e tentou chutar o vidro. O carro sacudia levemente a cada pancada.

- Não dá pra sair, André. Já estamos chegando.

- Me deixa sair, não tenho mais nada, por favor.

- Não quero suas coisas.

- Fica com o celular. – André tentou jogá-lo no banco do carona, mas o condutor o impediu, afastando-o. André viu o rosto fino e magro do motorista. Uma forma estranha, comprida e pálida. Os olhos pareciam vazios vistos de tão perto. Fundos com olheiras grosseiras.

- Tarde demais, André. Fique com seu aparelho. – O condutor sorriu, mas não como antes, havia uma malícia estranha. – Você o queria mais que tudo por um momento e o teve. Guarde isso.

- Fique com tudo, não tenho mais nada, juro, mas eu dou um jeito para chegar em casa.

- Casa?

André recuou no banco e sentiu novamente a dor, mais forte dessa vez.

- Para onde você acha que estamos indo, André?

O Jovem olhou para o espelho. Seu condutor o examinava com as írises negras muito bem recortadas no branco de seus olhos.

- Onde você acha que está, André?

O passageiro olhou para a janela e então longamente para o espelho onde via seu condutor.

- Eu não deveria ter reagido, não é?

O Motorista apenas balançou a cabeça.

- Você Podia ter soltado o celular.

André moveu a mão de seu ferimento e viu o sangue já seco. Estava nu. Não tinha nada, roupa nenhuma, apenas o celular nas mãos.

- Eles tinham uma faca, André. O segundo golpe não foi um soco.

Os olhos do motorista se viraram para a estrada à frente onde um túnel se projetava para baixo.

- Você está com frio, certo? Infelizmente seu destino vai ser duro, amigo. Duro e sombrio.

André baixou os olhos chorando... ele sabia disso. Ele sabe a vida que teve e o que fez. Seu destino não seria outro.

- Nada que eu possa fazer, sabe? Como um Uber ou um barqueiro, eu só sigo a rota. Como um barco levado pelo vento, ou seguimos com ele ou contra... – Ele olhou o retrovisor de novo – E eu nunca vou contra o vento, André.

- E-eu sei...

- Pode descansar se preferir. Estamos perto.

O passageiro segurou com força seu telefone. Ao menos ainda o tinha.

- Ah. Espero que tenha trazido a minha moeda. – Disse o motorista, o encarando.

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