A prisioneira

Nesses dias a luz queimava sua retina mesmo com os olhos fechados. Sob as pálpebras cerradas, seus olhos sentiam o leve ardor da claridade, então ela se protegia nos intervalos regulares em que os galhos próximos, movidos pelo vento, deixavam transpassar o sol em sua direção.

Já treinado pelos anos de cárcere, seu pescoço erguia-se para que os olhos desviassem do facho reluzente, enquanto virava seu rosto para a parte mais escura da cela e depois de alguns minutos descansava, deixando sua cabeça novamente apoiada em seus braços. Se alguém de fora a visse, e pudesse observá-la por um tempo poderia julgar que se tratava de um autômato ou alguma coisa que assim valesse por causa deste movimento repetido com alguma precisão.

O som também incomodava seus ouvidos doentes, principalmente as crianças com suas perguntas infinitas, suas gritarias de vozes estridentes. Não havia, porém, gesto ou movimento ou posição que amenizasse este último desconforto, então, resignada, ela simplesmente tentava ignorar os passos arrastados dos transeuntes, a correria dos pequenos e as vozes que os acompanhavam, sempre ligeiramente espantadas ou fingindo espanto de vê-la ali, aprisionada. Interjeições que poderiam demonstrar algum carinho, mas que, sabia ela, eram apenas um esforço para que cada um, tendo feito esse gesto, pudesse então se eximir de alguma culpa por vê-la prisioneira, entre grades e correntes.

Se diante de algo que considerem injusto, ou por um ato que considerem revoltante e, no caso, não podendo fazer nada para resolvê-lo, as pessoas costumam contentar-se em fazer o que compreendem como o máximo possível dadas as condições. Algumas vezes este máximo é um suspiro e um severo balançar de cabeça.

Um pouco curiosa sobre o movimento do dia e decidida a entender os donos de cada uma das vozes terríveis, ela levantou as pálpebras sem mover o pescoço e, por alguns instantes arriscou um olhar para os passantes, mas não havia novidade. Nunca havia. Submeteu-se ao cansaço, portanto, e deixou-se deitar sobre os braços. Contemplou o chão em busca de algum interesse novo, mas desse esforço nada veio além de uma fila de formigas muito conhecida por ela. Sentiu sede, mas estava tão distante da água que o esforço lhe pareceu exagerado. Cansada e febril demais até para se saciar, ajuntou na mente esses assuntos que tinha e teve uma pontada de autocomiseração.

Não que ela se julgasse inocente. Conseguia distinguir moralmente seus crimes. O sangue que derramou e as vidas que tirou. Justificava cada uma delas, como se faz quando confrontado por aquilo que não deveria ter feito. À época, entretanto, ela sequer sabia disto. Era o que tinha que fazer e assim foi e o fez, descontrolada, mas ciente dos pecados que cometia. O que não conseguia lembrar-se, e isso incomodava um pouco seus pensamentos era o momento quando foi julgada e condenada. Quando decidiram que ela seria exposta entre grades e aprisionada para o deleite dos visitantes.

Sabendo, então, que mesmo sem respostas, tinha o que merecia, passava seus dias fugindo da luz, suportando os sons e esperando que o veneno e a corrupção poderosa que emanava de seu ferimento, agora já incurável, a levasse para sempre.

Nisto tudo havia algo, porém, que era agradável para ela. Os cheiros. De comida, de pessoas, de animais. Ela gostava de senti-los e alguns, em especial, podiam até animá-la. Como a carne, como o outono, como o cheiro da chuva chegando, o cheiro de madeira úmida, cheiro de animaizinhos pequenos e o de Alexandre.

Alexandre era seu carcereiro, mas também o melhor momento do seu dia. Ela o amava. Ele era doce, gentil e carinhoso. Ela não conseguia associar a prisão à Alexandre. Era como uma armadilha e a árvore onde ela está atrelada. A última não pode ser culpada pelos espinhos da primeira. A árvore apenas está ali, servindo ao propósito de si mesma, como ele.

Quando entrou naquela noite com uma sacola em mãos e um olhar decidido, ela se animou um pouco e tentou erguer-se, mas o dor não permitiu. Ainda assim se esforçou para olhar em sua direção. Febril, esboçou um sorriso e Alexandre correspondeu. Ela estava convicta, apoiada por memórias de momentos que justificavam esse pensamento, que, ainda que não pudesse entender o que ela dizia, ele conseguia ler seus gestos e olhos.

“Vem aqui. Você pode vir aqui?” Ele falou e ela tentou. Ergueu-se dolorosa e com extrema dificuldade avançou sobre as pernas e braços, praticamente arrastando-se em sua direção. Ele também avançou cautelosamente e encontraram-se no meio do caminho, onde Alexandre sentou-se e ela pôs a cabeça em seu colo. Ele acariciou seus cabelos e demorou-se em suas orelhas, passou a mão em seu pescoço, em seus braços. Ela poderia dormir, gostaria de dormir, mas a dor não permitia.

“Tudo vai acabar bem, garota, eu prometo”. E ela acreditava.

Alexandre também a amava, ela sabia. Ele não fazia seus barulhos como os outros. Ele entendia os sofrimentos que ela passava e respeitava e era silencioso e sua voz era grave, suave como um riacho correndo entre algumas pedras. Ele trazia seu jantar e, ainda que fosse prisioneira, a acompanhava comer e lhe trazia algo sempre especial. Perguntava-lhe se havia gostado e pelas suas respostas repetia ou deixava de lado uma ou outra escolha de prato.

Com a cabeça próxima do peito de Alexandre ela ouviu a porta se abrir e os passos do médico que entrava se aproximavam na mesma medida que o coração de Alexandre acelerava. Ele tinha medo. Ela não. O Médico caminhou lentamente até as grades de sua cela e cerrou uma cortina impedindo o público de assistir este momento de sua vida. Ironicamente isso atraiu ainda mais pessoas para o redor da cela.

Os olhos de Alexandre estavam marejados, e ela nem precisou vê-los pois sentiu o cheiro salgado das lágrimas que escorriam pelo rosto do homem. Sua voz, embargada, dizia as frases de sempre que misturavam “Olha como você está bonita” e “Boa menina”, mas ela sabia que não era uma boa menina. Sabia que ele lera seus crimes de morte em seus olhos e que, aprisionada, não teria como alcançar o coração de alguém tão bom quanto Alexandre, mas ele a amava mesmo assim. Ele era especial. O irmão que ela não se permitiu ter. Por isso, ela acreditava em suas palavras.

Ela não matou por vontade. Simplesmente não podia controlar seus instintos e apetites. Quando dominada pelo desconforto sazonal que sempre lhe acometia, ela sequer poderia, por mais que tentasse, impedir o fluxo de ódio e fúria que lhe dominava. Aquela sede terrível e insaciável que exigia um alimento específico. Morte. Mas ele, Alexandre, poderia perdoá-la se entendesse que o ferimento que tinha era auto infligido. Uma forma de escapar do tormento, mas que lhe acabou causando o próprio fim. Ela tentou achar os olhos dele, mas Alexandre e o médico estavam concentrados nas bolsas e itens que haviam trazido.

As mãos de Alexandre tocaram a base de suas narinas com um cheiro especial de algum agrado delicioso, as do médico em seu flanco com a promessa de uma picada aguda e profunda. Ela apenas tocou o agrado com a língua, tinha cheiro de carne. Ela tentou abocanhar o biscoito mas, com a injeção no momento preciso, sobressaltou-se e mordeu a mão do biológo. Percebeu o feito tarde demais, ele recolheu a mão sangrando. Ela tentou desculpar-se, mas seus olhos estavam pesados e os músculos muito cansados. O Biólogo examinou seus ferimentos, apenas arranhões dos dentes finos da prisioneira.

Alexandre falava com ela, palavras de ânimo para que ela soubesse que estava fazendo muito bem em deixar-se morrer. Não tendo como salvá-la da doença, ele estaria fazendo seu máximo possível. Por mais que tentasse, não teria sucesso. Ela sabia porque estava morrendo, ele não.

Ele e o médico tentavam curá-la observando suas causas naturais e não aquilo que se escondia sob sua pele. Não era sua culpa, ele não enxergava. Essa doença estava camuflada por um véu sombrio, uma máscara ancestral, uma fantasia que vestia para se mesclar à natureza macabra de seus instintos. Sequer era uma doença, mas a justiça.

Ela sentiu, então, o sangue de Alexandre encher-lhe os sentidos. O sabor forte e vivo e o cheiro de ferrugem. Esses sentido que sempre acordavam a morte que dormia dentro dela. Algo dentro de si debateu-se, como se ela fosse um desses casacos de louco prendendo o lunático que acabou de ver o objeto de sua mania. Seu estômago revirou-se e sentiu-se esgarçar com o toque de dedos vivos a tatear-lhe por dentro e tentar rasgá-la para que a morte que vivia em si pudesse sair, livre, ressurreta e viva, de uma placenta sinistra que era sua pele.

O veterinário e Alexandre afastaram-se, assustados. O saco de petiscos caiu da mão do biólogo e os biscoitos se espalhavam pelo chão enquanto a prisioneira se contorcia. O médico tropeçou e tentando segurar-se puxou as cortinas e então pais e crianças viram o corpo da loba se debatendo no chão, agonizando. Alguns gritavam para que os funcionários do zoológico fizessem alguma coisa, outros se afastaram dali com seus filhos. Um ou dois ameaçavam Alexandre e o veterinário.

"O que você fez?". Alexandre gritou e o veterinário olhou novamente o frasco em suas mãos, não estava enganado, era tranquilizante associado à dose letal necessária para que o animal não sofresse. Alexandre tentou voltar a aproximar-se e por um momento a loba o olhou nos olhos. Ele se abaixou, segurando a mão ferida, tentando manter-se calmo. "Ei, ei menina... ei... vai ficar tudo bem querida". Ela sentiu o tranquilizante agir, sentia-lhe mesmo a passear em suas veias e adormecer-lhe os músculos. Alexandre se aproximou e sentou-se perto dela e mais uma vez ela repousou em seu colo.

Ouvindo a voz de Alexandre que a consolava ela adormeceu finalmente. Livre, ouvindo apenas vozes ao longe. Sentindo cheiro de Alexandre e o som do riacho de sua voz. O rapaz ouviu-a balbuciar "meu irmão" e então ela foi sonhar, deixando para trás o corpo nu de uma mulher morta com uma colher amarrada por um fio metálico em seu baixo ventre.

Alexandre ergueu-se sobressaltado e a cabeça da mulher caiu de seu colo com um baque surdo no chão. Ele afastou-se, evitando o sangue com seus pés e encontrou as grades da jaula atrás de si. O Veterinário ficou em choque, sem conseguir mover-se, balbuciou alguma coisa inaudível. Quando finalmente conseguiu recuperar seus movimentos, tentou sair dali, mas levou muito tempo tentando fazer funcionar a maçaneta. Alexandre viu as pessoas que ainda acompanhavam o espetáculo correrem para longe gritando, ele precisava reunir coragem para atravessar o covil artificial dos lobos de volta para a saída, mas não parecia que teria o suficiente algum dia.

Quando a polícia finalmente chegou, os seguranças já o tinham tirado da cela e ele esteve calado até então.

Descobriu-se que a prisioneira era uma desaparecida de Goiânia há mais de 20 anos. Sumiu quando criança em viagem com o pai e o irmão pelo Mato Grosso. O corpo dos dois foi encontrado vítima de animais selvagens e ela foi dada como morta. O fio que prendia a colher de acabamento fino e delicado era uma corrente de prata, mesmo material do talher.

Alexandre e o Veterinário responderam um confuso inquérito policial de onde saíram culpados. Isso aconteceu nos meses que se seguiram. Ele não contou mais a história, aceitou em silêncio seu julgamento. O veterinário afundou-se nas drogas e morreu de overdose antes da conclusão da justiça.

Na noite em questão noite, porém, quando os primeiros policiais chegaram a ele no dia ele apenas conseguiu repetir algumas dezenas de vezes "ela era o lobo-guará". E balançava a cabeça incrédulo. Mas isso não constou nos autos do processo.

0 visualização0 comentário

CATEGORIAS

Recentes

ASSUNTOS

© 2023 por Nome do Site. Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Facebook
  • Twitter
  • Instagram