Agenor

Com os pés descalços e os sapatos pendurados pelo cadarço na mão direita com uma blusa bege, levemente rosada, de botões prata ladeados por um curto babado manchada de vermelho enrolada ao redor deles, com uma correntinha gasta ao redor do pescoço, mas solta o suficiente para esvoaçar em uma tira longa para trás, uma saia longa, também manchada, erguida acima dos joelhos com a mão esquerda onde segurava também uma bolsinha fina combinando com seus sapatos e com cabelos presos por uma travinha de pedras brilhantes coloridas, ela corria fugindo de uma casa de luzes piscantes e gargalhadas abafadas pela música alta.

As batidas que pareciam marcar e acompanhar seus passos apressados foram sumindo conforme ela se aproximou da encruzilhada. Andressa era seu nome e alcançando a esquina, apoiou-se no mastro de sinalização e observou as ruas uma a uma. Sua respiração estava pesada e olhos embaçados de choro. Ameaçou avançar. Uma vez pra esquerda, uma vez pra direita, mas, então, sentou-se, deixando as costas escorrerem contra o mastro que sustentava a placa de indicação das vias até que terminou sentada na borda da calçada.

Tinha chovido, mas ela não se importou.

Descansou o rosto no antebraço e este nos joelhos. Os pés largados com desleixo na água e lama da sarjeta. A música, muito distante, ainda podia ser ouvida. Uma melodia divertida, radiante com as notas repetitivas de algum sucesso adolescente.

Um pássaro noturno grasnou sobre ela protegido pelo escuro da noite. A garota se encolheu por alguns segundos e então fez um “chiu” como se para assustá-lo. Limpou as lágrimas com as costas da mão e viu a pulseira de renda, um detalhe cuidadoso que combinava com a blusa escolhida. Largou os sapatos e a arrancou, jogando o enfeite em direção à rua. Não satisfeita arremessou também seus sapatos para o alto, bateram na parede de uma casa alta. Um deles caiu sobre um toldo, ficando preso ali, o outro girou para o telhado da casa vizinha, sumindo de vista.

Um carro parou no semáforo ao seu lado. O Motorista a olhou longamente, fixou-se em seu rosto, ela desviou o olhar, mas ele não o fez. Com um dos braços apoiado na porta, e um cigarro entre os dedos. Ela bufou para mostrar seu constrangimento. Ele tragou o cigarro e lançou o resto, ainda aceso em direção da garota. Ela precisou levantar o pé quando o cigarro explodiu em fagulhas no asfalto perto da sarjeta e ele riu.

— Que merda! Você é maluco? Você tá doido?

Ele sorriu um sorriso mais largo.

— Quem me diz isso é a garota sentada na lama, cujos sapatos nem sabe mais onde estão, com as roupas íntimas à mostra?

— Tarado do caralho, vai se foder! Eu grito, hein?

— Ei, ei, ei... Só ofereci ajuda. Nada além disso. Quando a vi aqui, fiquei preocupado. Hoje era pra ser uma noite muito especial pra ti.

Andressa ficou levemente confusa e franziu a testa:

— Quem te disse?

— Sei muitas coisas sobre você, querida. De que forma não saberia sobre os planos importantes desta noite? – Ele saiu do carro sem se preocupar em estacionar o automóvel que ocupava uma das faixas nem fechar a porta. Estava bem arrumado com um chapéu e terno azuis. Casaco aberto e camisa rosa, cinto preto fino e sapatos excepcionalmente brilhantes e limpos mesmo após pisar no chão molhado. – Tenho acompanhado você e essa sua vida. Todos os dias, devo dizer. Alguns dias com mais interesse que outros. Ele deslizava como se andar fosse uma dança.

Andressa levantou-se preocupada, o homem vinha caminhando e ela se afastou um passo, destravou um trinco na bolsa e pôs a mão dentro dela. Ele ergueu a mão esquerda segurando um celular rosa repleto de adesivos infantis.

— Acho que você está procurando isso aqui, não é verdade? Desejaria chamar alguém? Posso completar a ligação pra você... mamãe? Seu irmão? – E então, ele fez uma careta colocando uma mão na boca como se estivesse com medo. – A Polícia?

Andressa afastou-se tanto que suas costas se comprimiram contra a parede do muro de uma casa.

— Já está assustada? – Ele sorriu, acendeu outro cigarro com um isqueiro dourado e puxou um trago longo. – Eu estaria.

— Me deixa em paz. – Ela disse, pontuando as palavras entre dentes cerrados.

— Se for seu desejo, posso te deixar, sim, mas você estaria em paz?

A menina andou de lado e começou a caminhar com pressa voltando pra festa.

— Prefere voltar ao lugar de onde fugiu chorando? – Ela não podia ver o rosto dele, mas o sorriso ainda estava estampado na sua mente. – Mesmo confrontada com o sobrenatural e o maravilhoso, os seres humanos preferem o conforto do conhecido, mesmo sendo o conhecido algo tão terrível quanto essa festa... esse medo destrói vocês. É o catalizador do comodismo. A inércia que os impele pro vazio ou os deixa absortos no nada.

Ela apertou o passo. Não conseguia ouvir os passos do homem a seguindo, mas a voz estava sempre bastante perto.

— Lá é como um abatedouro e você é carne. Não pode enxergar lá dentro, mas acha que conhece o que tem atrás das paredes, então caminha à passos largos para a morte... bem, é exagerado chamar isso de morte, mas é um desconforto tão grande que vai redefinir sua maneira de ser, mudar sua vida e te colocar à mercê de outras Natálias e outros Freds, entende?

Ela reduziu os passos.

— Entende, Andressa?

Ela parou.

— Você sabe meu nome? — Ela se virou, mas ele estava ainda longe na esquina. Uma das mãos no alto com o celular.

— Ah bobinha. – Ele disse como se estivesse a seu lado. – Que truque bobo. Isso a impressionou? Eu estou com seu celular e você acha que eu não saberia seu nome?

Ela caminhou cautelosa, retornando à encruzilhada. Ele colocou as mãos pra trás e aguardou pacientemente. Andressa estendeu a mão e o homem lhe entregou o aparelho.

— Excelente decisão.

— Quem é você? Se você sabe meu nome, é justo que eu saiba o seu.

Ele pareceu pensar por alguns poucos instantes.

— Sim é... mas veja bem, eu não tenho um nome, sabe? Me chame como quiser.

Nesse momento o cigarro chegava no filtro, ele o sacou da boca e atirou-o ainda aceso na direção dos pés de Andressa que desviou para o lado.

— Ei! — Ela ficou irritada de novo o que fez com que o homem sorrisse abertamente.

— Vamos, quero um nome!

— Vou chamar você de Agenor.

— Ora, ora. Fico sendo Agenor. Sonoro e interessante. Não que eu seja muito forte e, preciso dizer, nem muito valente, mas quem está julgando, não é mesmo?

— O que você quer, Agenor?