Curandeira

Quando seus pés avançaram, a névoa se espalhou em ondas ao redor de suas canelas, permitindo que visse partes do chão avermelhado de argila batida. Essas ondas nebulosas precipitavam para todos os lados como se um mar branco e etéreo se estendesse aos seus pés e então chocavam— se contra as paredes, pedras ou os corpos de soldados caídos, explodindo em uma forma fumacenta e desfaziam— se como nuvens levadas pelo vento.

Iroas, à sua frente, ia devagar com os pés lentos e baixos. Com atenção, Adyna podia ouvir a ponta dos dedos do guerreiro riscando o chão ao calcular cada passo. Gemidos dos soldados, ainda vivos ao redor, chamavam seu nome e os alertavam sobre o destino que os esperava.

— Morrerão!

— Voltem! Não sejam tolos!

— A morte. — Um deles disse e a garota paralisou — A morte mora aqui!

Iroas olhava a cada um destes com compaixão, porém determinado, trazendo à lembrança de Adyna o momento da Caçada ao Terror de Abal, um monstro de centenas de patas que assolou a região. À época, O comandante de ambos, sem esperanças de conseguir alcançar a criatura, disse ao guerreiro que deveria pôr fim à empreitada e voltar para casa. Ioras balançou a cabeça negando:

— Se eu for — tinha dito Iroas — O monstro vem atrás de mim pisando sobre as minhas pegadas. A única coisa que farei é mostrar-lhe o caminho. Se eu for, nada impedirá a criatura de matar nossos filhos. — E mais tarde, quando o guerreiro e a curandeira estavam sozinhos, ele disse lembrar-se do pequeno que deixara em casa. Rechonchudo, disforme. Disse que podia sentir seu cheiro, ouvir seus grunhidos e sabe que o proteger era a tarefa mais importante da sua vida. Neste dia, Adyna sentiu crescer o respeito por Iroas e, ainda que ela não soubesse tomar o caminho da espada, o serviu até então com a admiração que uma escudeira deve à seu mestre.

Mas foi quando um dos moribundos gritou um gemido grave de dor que Adyna apertou a casca dos seus três dedos contra a empunhadura da lança que carregava e sentiu a crosta dura que envolvia suas garrinhas estalar com a força de se ajustar à pegada. O líquido dentro de seu corpo tornou-se mais espesso e gelado e o ar ficou difícil de ser absorvido. Os películos de seus quatro braços se eriçaram. Ela estremeceu e gemeu.

— O que há? — Iroas perguntou, parando por alguns instantes. Olhava diretamente nos olhos da jovem. — O que sentiu? É só medo? — Não era uma ofensa. O Guerreiro confiava em seus pressentimentos. — Sabes que não podemos voltar, certo, pequena? Não agora. Não hoje.

Ele tinha a espada lapidada de um ferrão em punho e um escudo talhado de casca de árvore – presente de vitória na batalha do pé de limão – resistente como poucos neste mundo, de prontidão no outro braço.

— Concentre-se em mim e na minha voz. Não deixarei que nada te aconteça.

— Eu... — Ela gaguejou. — Eu sei!

Há muitos ciclos Iroas a encontrou. Sobrevivente e órfã. Acolheu-a em seus braços e descobriu com ela os seus dons. Ensinou-a como pôde a manejar a espada e a lança, apesar da pequena nunca ter demonstrado talento para isso. Ajudou Adyna a entender e desenvolver poderes estranhos e divinos com os quais ela curava os ferimentos dos soldados e as dores de terceiros. A pequena curandeira, Iroas a chamava.

Com suas pernas finas, verdes e compridas, o guerreiro voltou a arrastar-se, passo a passo, adiante através da névoa. Sorrateiro, ele girava suas longas antenas à procura de qualquer movimento inesperado. Adyna, por sua vez, mantinha as largas asas arredondadas junto ao corpo. E então ela foi puxada para trás.

Prendera um de seus braços nos fios gosmentos que atravessavam, discretos, por longos vinte e cinco centímetros, do teto ao chão da caverna. Ela mal conteve o grito que lhe saiu surdo, aprisionado e abafado.

Iroas virou-se rapidamente, tapou sua boca e segurou em seu ombro, aproximando o rosto do seu.

— Não se mova. É assim que ela enxerga sem olhar. — Ele apalpava suavemente a corda pegajosa com suas antenas, então ergueu a espada de ferrão e cortou o fio com um golpe rápido. — Se dermos sorte, ela não estará atenta para sentir isso. — Sussurrou.

Adyna assentiu e uniu todos os seus braços ao corpo o que pareceu tranquilizar Iroas. Ele voltou a caminhar, arrastando seus pés com muita calma e, à sua frente, a névoa se moveu e precipitou para o alto. Subiu como se um balão se erguesse da água, espalhando a fumaça branca e fria ao seu redor enquanto assomava diante de seus olhos. A névoa escorria ao redor da forma gigantesca como um véu que descortina uma surpresa macabra.

Quatro pares de longas pernas peludas erguiam-se rumo ao teto da caverna e então, antes que atingissem metade da altura, arqueavam, cedendo ao peso do corpo enorme e ovalado que sustentavam como poderosas molas bem distribuídas. O corpo se dividia em duas formas grandes: a maior atrás, gorda e oblonga e a da frente, mesmo menor, era mais ameaçadora, exibia pesadas presas e dois bracinhos curtos de cada lado delas que se moviam como se o único objetivo de sua existência fosse segurar e empurrar as vítimas para que essas presas úmidas pudessem fazer seu trabalho. Adyna assombrou-se pela visão dos olhos da criatura. Quatro pares distribuídos ao redor da cabeça. Dois pares pequenos sobre as presas que, em semicírculo miravam para frente, um par que se distribuía de cada lado do rosto, vigiando seus flancos e então um par muito especial. Dois grandes olhos fixos, brilhantes e negros que a encaravam diretamente.

A caverna a frente dele abriu-se em uma área grande e larga, parecia-lhes um covil. Teias viscosas adornavam todas as paredes e fios verticais cercavam quase tudo, do chão ao teto, conectando-se a uma rede no alto por onde uniam-se todos.

Iroas, por instinto, ergueu um de seus quatro braços à frente de Adyna para impedi-la de avançar, tomando, ao mesmo tempo, uma postura de combate para defende-la. A Aranha, gigantesca, não moveu-se além daquele lento subir e descer, quase imperceptível, reagindo à respiração lenta da curandeira. Como se estivessem ligadas por uma conexão mais forte que aquele olhar terrível onde, mesmo distante, Adyna podia se ver refletida.

Outro reflexo que Adyna se lembrava era de seu rosto pequeno balançando nas ondas da poça de água e lama em Akros. Ajoelhada e ferida, sua hemolinfa escorria pela antena quebrada e pingava na poça, deformando o reflexo da jovem curandeira.

— Me deixe, por favor. — Ela chorara para Ákrida, o gafanhoto que, acima de si, gargalhava. — Sou só uma curandeira. Não estou aqui para lutar. Eu cuido dos feridos e as vezes os deixo confortável enquanto vão embora para a grande luz. Sequer tenho armas, veja.

Ákrida piscou com sua pálpebra lateral, um dos olhos morto, ferido e destruído. Seu rosto deformado da luta, mas seus braços não cederam, empurrando o rosto da pequena para a água, tentando afoga-la.

Desta feita, Iroas chegou a tempo. Lançou-se sobre o inimigo com a força de suas longas pernas, nascidas nele justamente para esse propósito e embolou-se pela lama com o bandido-gafanhoto. Verde e marrom se misturavam, asas se rasgaram, e ironicamente, talvez também por um pouco de justiça a ser cantada pelos bardos, um dos olhos de Iroas se foi nesse dia, ferido pela lâmina do gafanhoto. Motivo pelo qual o guerreiro, hoje, usava o tecido de folhas protegendo metade de sua cabeça.

Quando Iroas, finalmente vencedor, se ergueu sobre o corpo sem vida de Ákrida e ajudou a curandeira a se levantar, não recebeu bem seu agradecimento.

— Não viestes lutar, Adyna? Porque estás aqui então? — Ele jogou as antenas do gafanhoto e sua arma no chão. — Curar-me? É tudo que podes fazer, pequena? Somos sempre mais que uma coisa só. Somos a ideia que carregamos sobre o mundo, sobre justiça, sobre honra, sobre o bem e o mal... sou mais que um guerreiro e você é mais que uma curandeira, eu creio. Estarei errado?

Ela nunca o respondeu.

Adyna sentia-se sempre pequena frente aos desafios que enfrentavam. Uma jovem mosquito-do-filtro, de aparência inofensiva, cinzenta, abaulada. De asas des-proporcionais, largas, vagarosas, redondas. Era lenta. Era inábil com as armas. Não transbordava a glória esverdeada que o grilo Iroas refletia em seu corpo concentrado, comprido, esguio e de poderosas pernas e movimentos ágeis. Ela sequer tinha a bela voz do guerreiro e sempre o desviava do tom ao tentar acompanha-lo nas noites em que a tristeza o fazia cantarolar as canções antigas que aprendera com os anciões.

Adyna conhecia seu lugar. Era sempre a segunda por ali, um peso necessário. A poção providencial de cura, mas em um frasco gordo, cinza, mole e fraco. Mesmo que o grilo a fizesse se sentir melhor com suas palavras e exigisse mais e mais dela. A pequena mosquitinha jamais chegaria aos pés do altivo e poderoso Iroas. O Herói grilo.

Então, ela nunca o respondeu.

A aranha avançou contra eles, firme. Dois passos apenas e já estava em cima dos dois. Iroas empurrou a mosquita para o lado e saltou sobre o monstro. Ferrão nas mãos, tentou atingi-la sem sucesso. Rápida como nada que Adyna tenha visto, a aranha se virou e arremeteu contra Iroas, o guerreiro foi rápido apenas para erguer o escudo que suportou o golpe, mas o lançou mais para trás, onde, nas sombras, Adyna não conseguia mais vê-lo. A aranha o seguiu com um passo longo e então a mosquito ficou sozinha na escuridão da caverna, acompanhada pelos sons adiante de si. Gritos de Iroas e o estalar dos passos secos das pernas duras da monstruosa aranha que o enfrentava. Uma dança difícil de entender.

Os gritos, gemidos, urros e passos firmes se moviam pelas sombras, fazendo com que Adyna pudesse apenas imaginar o que estaria acontecendo e onde.

A curandeira ergueu seus braços a sua frente, aquele brilho que antecedia sua suave magia emergiu diante das suas patinhas ajudando-a a enxergar um pouco a sua frente e ela avançou para os sons, usando suas mãos como uma tocha trêmula e suave.

Iroas gritou algumas palavras contra o monstro, Adyna já conseguia divisar os vultos movendo-se para um e outro lado. Por vezes ela percebia um brilho e algum movimento rápido. Possivelmente os saltos majestosos do grilo outras vezes ela sentia o chão tremer e os passos pesados com o avanço da aranha.

Caminhando devagar, ela se aproximava do combate que parecia fugir dela e então, tão logo começou a ver o corpo da aranha flutando adiante, pisou em algo que estalou sob seus pés.

Era um escudo de madeira. O escudo de Iroas. Adyna ameaçou pegá-lo, mas notou que um dos braços do grilo ainda estava preso a ele e ela recuou de olhos arregalados e coração disparado.

Ela chamou pelo guerreiro. Um grito incontrolado. A aranha virou-se apenas o suficiente para que dois pares de olhos laterais espreitassem a pequena das sombra.

— Vá — Gritou Iroas. — Mas não voe, Adyna, corra. Fuja!

Ela não conseguia vê-lo, mas sua voz parecia diferente. Assustada, Adyna imaginou tê-la sentido falhar. Ela deu um passo para trás.

— Não há mais chance pra mim, Adyna! Salve-se! Conte a todos o que viu, o que aconteceu... cerquem a caverna.

A pequena estremeceu. Sequer lhe parecia que era Iroas quem gritava com ela, mas alguém muito mais distante, um sopro de voz fraca e débil. Em vez de obedecer, ela avançou. E então notou, assim que sua luz fraca venceu parte da sombra onde estavam, que o grilo estava encurvado sobre si mesmo. Braços sobre o abdome, suportando uma dor terrível. Outra voz surgiu, arranhando seus ouvidos na escuridão.

— Ele bem sabe, mosquitinha. Ele bem sabe o final que o aguarda. Uhnnn. Vou saborear suas longas pernas finas.

Adyna arremeteu em direção ao grilo. Iroas estava mais perto de si do que a aranha. Ela se lançou a ele, jogando-se para frente e o tocou. A cura fluiu de seus bracinhos e lhe deu nova energia. Ele agora se ergueria. Ferrão em punho como um verdadeiro herói. Seria, como sempre, vitorioso.

Mas não o fez. Apenas virou- se para ela.

Ele respirou, ofegante. Dois braços apenas. Uma das asas destroçada. No peito, Adyna agora via, sua carapaça natural fendida por onde a hemolinfa escorria. A cura da jovem o fez abrir o olho que lhe restava e suas antenas tocaram o rosto da pequena.

— Porque não se foi? — Ele sorria e sua voz era a de um velho. Só agora realmente parecia ele ter a idade que os anos lhe deram — Deverias ter fugido. Ainda tem chance, minha pequena. Corra. Não voe ou as teias a prenderão. Corra pelo caminho que viemos...

— Estou confusa, Iroas. — ela chorava — às vezes me diz para ter coragem, e agora me diz para ter medo?

— O medo não é seu, pequena. É meu. Medo de ver você sofrer.

— Eu nunca sei o que fazer, Iroas. — Ela o abraçou.

A aranha ergueu-se lentamente sobre ambos:

— Não sabes. — E riu— se. — Certamente não sabes. Agora se põe à minha mercê. Não recuso favores. Terath não é do tipo que desperdiça boa comida. — Ela deixou, deliberadamente, um fio da baba venenosa escorrer pela presa lentamente e gotejar para o chão.

Adyna tentou por mais uma vez curar seu amigo e ele segurou seu braço com força.

— Não. Não gaste mais energia comigo. — Ele disse. — E a afastou, empurrando seus braços.

Terath deixou-se pender adiante deles descendo o tórax e mantendo seu grande abdome ereto. Inclinada assim era mais ameaçadora, olhos fixos e presas salivando veneno. Sua boca abriu-se com os bracinhos agitados, ávidos pela refeição. Avançavam e recuavam contra eles, mas a aranha não atacou. Saboreava o medo e o momento.

— Jantar e sobremesa. — Sussurrou. — Eu devo dizer que adoro a carne protegida pelas cascas crocantes. O Grilo me será saboroso como nenhum dos soldados feridos nessa gruta. Mas todos me trarão substância, assim como você, gordinha. Sou pragmática, como percebes. Alimentos são alimentos, diversão é diversão. Não sou afeita a embates, ainda que boa caçadora. Se puder, tenho comida sem luta, sem esforços. Deixo armadilhas grudentas e volto para buscar as recompensas. — Ela sorriu por trás das presas. — O Grilo deu-me trabalho — e abaixando-se exibiu um corte profundo no alto esquerdo da cabeça que lhe custou um dos seus olhos laterais. — Mas espero que você não o faça.

Adyna estremeceu e deixou sua lança cair ao lado do aliado.

— Eu senti você, pequena. Nas minhas teias antes de chegar. Seu braço rechonchudo e macio. Senti o toque ríspido da espada do guerreiro cortando minha corda exposta. Sinto tudo daqui mesmo, leves nuances nas minhas redes. Mas vou além, posso saborear sua fraqueza e agora mesmo sinto seu medo, ele tem uma vibração tão doce e agradável. — E Terath bateu os bracinhos, estalando as presas como se saboreasse a comida.

— Cale-se! — Iroas gritou com a voz embargada como se carregasse com ela o veneno que o matava. — Adyna, o veneno da aranha não corre só nas veias. Ela quer atingir seu espírito. — E gemeu de dor enquanto tentava se erguer. — Eu vou te dar tempo para fugir. VÁ!

Iroas levantou-se e com muita força empurrou Adyna para longe. A mosquitinha cambaleou e então com um leve adejar de asas se equilibrou, virou-se e correu. O Grilo ergueu como pôde a sua espada e Terath arremeteu o rosto contra ele. A espada de ferrão voou no ar, solta, caindo à frente de Adyna. A pequena parou com a respiração ofegante.

O silêncio.

E então.

CRACK

Ela baixou os olhos. Chorou sem esperanças.

Antes de entrarem na caverna ela tinha dúvidas como agora:

— Devo esperar aqui?

— Por qual motivo?

— Nem sempre posso ajuda-lo, Iroas, talvez seja o maior perigo que já enfrentamos. Não deveríamos aguardar reforços? Com todos juntos e um bom plano...

Iroas sorriu à menção da palavra.

— Sempre um plano, não? Mas não há tempo, pequena. Muitos soldados feridos lá dentro. Não sabemos se Terath possui outra saída. Se ela escapar de novo, e nos atacar mais uma vez, nossa cidade pode perder tudo! Temos a chance de pôr fim a esse ciclo de maldade.

— É em nós que deve terminar. Isso você me ensinou bem. — Ela assentiu. — Mas tenho medo que eu atrapalhe você mais do que posso ajudar.

— E como o faria se sempre dependo de ti?

— Eu sou apenas uma curandeira.

— Você não é. — Ele disse — Você é mais que apenas uma coisa, lembra? Ser uma curandeira não é o que define você, Adyna, pequena. Não é o que vejo em você, não é o que lhe é guardado. Você é mais forte que eu jamais fui. Eu guardo segredos terríveis sobre meu passado. Você é pura, é confiante, é poderosa. Conseguiu mais em sua idade do que eu poderia ter feito e me levou mais longe do que eu jamais chegaria sozinho. Se este velho aqui ainda empunha uma espada é graças a você, minha querida. — Ele a abraçou e então a soltou — Eu tenho escudo e espada e treinamento e você enfrenta o mesmo que eu com uma lança velha de palito e sua coragem. Você é a heroína, Adyna eu só te mostro o caminho.

Então a mosquito foi acordada por passos pesados e precisos atrás dela.

— Hora da sobremesa, pequena. Está pronta?

Ela se abaixou, pegou o objeto no chão, e então girou em direção à aranha.

— Estou pronta. — Disse, erguendo a espada de ferrão.

Terath riu-se e com os pequenos braços bateu na espada querendo lança-la longe, mas a mosquito foi ágil para desviá-la. O Monstro recuou, surpreso.

— Não resista! — Disse entre os dentes. — Ainda que fosses capaz de fazê-lo, só tardaria seu destino e me deixaria mais faminta dos seus líquidos.

— Não me teste! — Adyna respondeu, avançando a espada com uma estocada.

A aranha esquivou-se, erguendo o corpo com as pernas arqueadas. E então girou, cercando a mosquito contra a parede. Avançou duas vezes com os bracinhos maliciosos e as presas pingando o líquido envenenado, mas em ambas Adyna evitou o contato erguendo a espada diante de si.

A pequena escorregou próximo da parede, evitando a teia que a cobria, suas asas semi-abertas, deslizou por baixo da aranha que lhe tentou acertar com a ponta das patas grandes sem sucesso.

Terath precisou girar e então Adyna já estava em seu flanco. Não que a surpreendesse, pois tinha ainda olhos deste lado da cabeça. A espada avançou, as pernas fugiram, mas não rápido o suficiente. O sangue da aranha correu, um cinza esverdeado, gosmento e vil. Adyna afastou-se e parte da perna, boba, presa ainda apenas pela crosta do exoesqueleto balançou, soltou-se e foi ao chão.

A aranha guinchou de dor ou de ódio e arremeteu com precisão sobre o corpo de Adyna. Encontrou com seu rosto o abdome da mosquito e suas garras seguraram uma das asas dela, fazendo seu trabalho e trazendo-a para a boca. As presas venenosas rasgaram facilmente o pedaço da asa que alcançaram. Adyna debateu-se, cortando um pedaço da própria asa no esforço e rolou para longe chorando.

Terath gargalhou:

— Assustou-me por um momento, mosquita. Um serzinho tão pequeno foi quem mais conseguiu ferir-me até então. — Disse, entre jocosa e irada. Mostrando a pata arrancada. — Vou lembrar de ti, claro, para sempre. Mas dessa história mais ninguém saberá, mosquitinha gorda, mole. Quem se lembrará de você quando falarem de mim? Quando contarem terrores aos filhos durante a noite, quem mencionará a mosquito gorda e mole de asas grandes lerdas?

Terath saltou, alto e adiante, caindo sobre Adyna que encolheu-se. A aranha deixou uma das patas, duras, pontudas cair sobre o ombro da pequena. A mosquito gritou de dor e o rosto da aranha aproximou-se do seu. Adyna sacudiu a espada como pôde tentando afastar o monstro de si, mas a aranha segurou a arma com seus bracinhos e as gotas de saliva venenosas começaram a pingar no rosto de inseto da pequena.

Adyna não sabia o que fazer e nesse momento, e com a mente embaçada o pânico lhe trouxe lembranças de Iroas e as coisas que lhe ensinou. Não poderia ser apenas uma curandeira. Podia ir além? Se podia curar, podia causar dor? Seria capaz apenas de fechar os ferimentos com seu toque ou talvez poderia fazê-los surgir?

Defendeu-se da aranha e segurou-lhe uma das pernas. A aranha recuou a pata libertando-a das mãos da mosquito e avançou com o rosto para pegá-la. Adyna protegeu-se dos braços e espalmou as mãos no rosto e nos olhos do monstro. O brilho em suas mãos foi estranho para a mosquito, uma cor jamais vista. Escura, sombria. Diferente.

Em resposta veio o grito de Terath. Dor. Ela soltou Adyna que fugiu desviando-se da dança de pernas que a aranha fazia em agonia.

A mosquito pegou a espada e correu para longe e ao redor de Terath. A aranha recuperava-se e avançou devagar pela caverna.

— Podes fugir, mas não poderás escapar. — Parecia atordoada — Podes ter ferido meus melhores olhos, mas tenho outros tantos meios de vê-la.

Adyna não a ouviu, correu de espada em punho não contra a aranha, mas para as paredes. Ela envergou as asas cinza claro cobrindo suas costas. Contra as teias sujas da caverna e na escuridão onde estavam, isso a fez desaparecer, mimetizada entre as cores do lugar.

— Não. — Terath parecia finalmente preocupada. — Não! Onde estás, pequena mosquito mole? Achas que podes se esconder de mim em minha casa? Enxergo aqui pelas paredes, pela névoa do chão e pelos fios que plantei pela caverna. — E então Terath virou-se exatamente para o lugar onde Adyna se escondia, o peito da mosquitinha comprimiu seu coração acelerado. — Cada passo aqui dentro é um passo na minha própria cabeça, pequena gorda mole. Meus fios são como antenas, são meus próprios nervos abertos e sensíveis a cada tremor e cada fiapo de som. Mesmo seu respirar eu consigo ouvir daqui. Pareces amedrontada, gordinha, é isso? Estás com medo?

Sim, estava. Adyna encolheu-se olhando a quantidade de teia espalhada por Terath, fios longos que pendiam do teto ao chão e outros tantos ligando-os entre si. Fios nas paredes e espalhados sobre eles como uma rede. A respiração da mosquita se abrandou. Ela apertou firma o cabo da espada de Iroas e saiu de seu esconderijo. Terath sorriu e inclinou-se contra ela.

Adyna avançou contra um fio de teia vertical pela caverna, cortando-o. A aranha virou-se rapidamente nesta direção. Então saltando com a asa a proteger-lhe, Adyna tornou-se cinza novamente e sumiu contra a caverna escura. Cortou outro fio e correu, invisível e cortou mais outro. A cada corte a Aranha virava-se como que sentindo o perigo ou oportunidade de certo lugar.

A curandeira continuou cortando as cordas e a Aranha, confusa e cega ainda pela dor nos olhos girava sobre si. Cambaleando e procurando a mosquitinha.

— Pare. — Ela gritou. — Pare com isso ou vou fazer sua morte ser ainda mais dolorosa.

Adyna continuou a correr. A espada do mestre em punho, cortando as teias com a lâmina e a cada golpe parecia que atingia mesmo os próprios nervos de Terath.

A aranha gemia e logo urrava de confusão e dor, tonta, atordoada. Rodava pelas pernas. Por algumas vezes ameaçou avançar contra Adyna, por duas realmente o fez, mas arremeteu sem precisão encontrando apenas o espaço em que Adyna estivera momentos antes. Não parecia capaz de orientar-se corretamente e então a caverna parou de rodar quando Adyna cortou o último fio de teia. Terath cambaleou para os lados, procurou pela mosquito e a encontrou.

Adyna estava sobre o corpo caído e parcialmente devorado de Iroas. A aranha lançou-se adiante contra ela, mas seus pés não estavam firmes como antes, mas cambaleantes. Apesar disso, ela alcançou a mosquita e, com os braços, desarmou-a, lançando a espada caverna adentro.

— Foi um esforço em vão. — Terath sussurrou, com a voz fraca. Seus olhos não estavam aguçados, mas baços e confusos. — Sua arma se foi, pequena.

— Aquela não era a minha arma. Era a dele!

Abaixando-se, Adyna tomou sua lança esquecida no chão e ergueu-se, puxando o cabo e a ponta da arma pelo tórax de Terath. A ponta da lança deslizou pelo casco duro e então engatou em uma das fissuras abaixo de sua boca. A força que tinha não foi suficiente para rasgar o monstro, mas abriu suas largas e lentas, mas muito fortes asas redondas e mesmo com uma delas feridas deu impulso no ar. A aranha, tonta, tentou desvencilhar-se, Mas Adyna avançava forçando as asas para o alto mais uma e mais outra vez e a lança cravou-se na carne da aranha rasgando a crosta e atravessando rumo à boca e depois dela a cabeça do monstro. Terath debateu-se em vão e Adyna forçou seu vôo enfiando-lhe a lança até que a ponta saltou para fora da aranha por cima atravessando toda sua cabeça.

Ela sentiu o peso do corpo gigantesco sobre sua arma e então viu os olhos malignos de Terath se embaçarem e as presas e os braços ao redor de sua boca lentamente penderem mortos. Soltou a lança e a aranha caiu no chão espalhando poeira e fazendo a névoa expandir-se em ondas poderosas que explodiram em fumaça contra as paredes.

— Pequena. — Dizia Terath. — Gorda... mole...

Adyna respirou e deixou-se cair chorando sobre o corpo do Guerreiro.

Quando saiu da caverma, carregava o corpo de Iroas, mas não havia ninguém para ajuda-los. Os soldados feridos já estavam mortos. Colocou o mestre morto próximo a uma rocha protegida.

Iroas, o herói que fez tombar Ákrida, o gafanhoto. O herói da batalha de Tehhas. Que resgatou a rainha Ijara e que recuperou os tomos de Cern, quebrado ao meio como um galho seco.

Iroas caiu para Terath, mas ninguém o saberia. Adyna contaria outra história. Quando ele se sacrificou e a venceu usando a lança da curandeira. Sua escudeira. Aprendiz.

Ela chorou sobre o corpo do grilo.

— Eu sou apenas uma curandeira.

— Você não é. — Ele disse — Você é mais que apenas uma coisa. Ser uma curandeira não é o que define você, Adyna, pequena. Não é o que vejo em você, não é o que lhe é guardado.

— Você é o herói, Iroas. Eu, a escudeira.

— Eu sou herói porque assim me querem. Porque os salvo do mal que não podem ou querem enfrentar. O maior mal de todos, menina, é a morte. É o que temo, pois se me atingir, cairei para sempre e não mais poderei fazer o que eu nasci para fazer. E sempre que você ergue sua mão para mim e me afasta do destino final me salva desse mal.

Adyna o ouvia com atenção em suas lembranças.

— É o mal que não quero, nem posso enfrentar. Isso faz de você a minha heroína. Se não é de todo o povo, é a heroína dos heróis e isso faz de você maior que todos nós.

Ali ficou a mosquito e o grilo morto, vivendo lembranças até que os reforços chegaram. As formigas avançaram, soldados abrindo caminho entre a mata pelos flancos e alcançando a entrada da caverna. Gritavam uns para os outros para se localizar. Até que um pequeno grupo avançou na clareira onde estavam.

— Ali. Venham. Vejo insetos aqui.

— Posição. Posição.


— Não, senhor, não oferecem perigo. Estão com a gente, são nossos. — O soldado avaliou. — De toda forma, o grilo está morto e a outra é só uma curandeira.

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