verde, azul, laranja e vermelho.

As cores somem quando eu abro os olhos. Se antes, enquanto sonhava e era um com a natureza eu via todas as escalas de todas as cores, agora tudo assume um tom de laranja. Tudo é quente, mas sempre nesse tom, quase tocando no amarelo e chegando até o laranja mais escuro. Não há verde. Não há azul. Não há vermelho. Não existem aqueles meios-tons e semitons comuns às matas onde estou. Não posso ver aquele verde que se sobrepõe ao outro verde mais claro ou mais escuro nem o amarelo de uma flor que quase não se nota sobre a folhagem do outono. Não existe mais o verde-musgo e o verde-oliva e o verde-mar. Nem o azul-céu tão claro que mal percebemos o início das nuvens como se fossem um degrade suave em uma textura quase indistinta. Nem mesmo aquele azul real que invade às tardes e recorta o branco das mesmas nuvens como se fossem desenhadas sobre um papel. Há apenas o laranja, como se a mata tivesse em chamas e os céus fossem um eterno horizonte de pôr-do-sol.

Mas ainda sei o que é verde. Sei o que é azul e sei o que é vermelho. A grama sob meus pés deveria ser verde, o céu, azul e o sangue é vermelho. E sempre que acordo assim com o laranja queimando tudo, eu quero as cores. Enquanto tudo é laranja, eu desejo o verde e o azul e o amarelo e, em alguns dias, o vermelho acima de todas elas pois vão me trazer descanso e me dar paz. Reestabelecer o equilíbrio de tudo e deixar cada elemento em seu lugar de direito.

Assim como a cor que vejo, sou quente e terrível. Assusto os pássaros quando meus passos espalham fumaça do calor da sola queimando as folhas secas do chão. Não as vejo, mas sei que as capivaras evitam a minha presença, fugindo para as margens dos rios, onde é fresco. Criaturas das árvores correm pelos galhos com o instinto gritando de medo da fumaça que sai de mim. As matas ficam. Não sabem fugir. As árvores temem o fogo, mas me reverenciam e evitam bloquear-me, usando o vento para mover suas folhas e galhos para fora do meu caminho.

Quero saber o motivo de meus olhos não estarem mais mortos. Quero saber o que evita o meu sono e os sonhos coloridos onde as criaturas vem comer e beber comigo em vez de afastarem-se em debandada. Então meus olhos me mostram. Apenas duas formas com as cores que mais desejo. Verde e azul, recortados no mar laranja. Saboreio o aroma de suas cores e mal posso esperar para tê-las comigo.

Penso que preciso correr, o chão se estremece sob meus pés e logo um urro sob mim mostra que tenho montaria. Um porco-do-mato invocado das entranhas da natureza me carrega em seus flancos. Guinchamos juntos enquanto desviamos dos troncos das árvores e encurtamos caminhos nas trilhas desconhecidas por qualquer um que não converse com as rochas e com as plantas. Logo estamos bem perto e diviso as formas corretamente contra o cenário laranja. Se parecem comigo, têm pés e pernas e tronco e corpo e braços e mãos. São altas e diferentes dos animais com quem convivo.

Já os vi outras vezes, não os mesmos, mas irmãos deles, todos parecidos e todos querendo guardar minhas cores para si. Quase sempre que sou acordado é por sua culpa. Mas essas são diferentes, cada uma tem um dos braços mais compridos. Quase o dobro do outro braço.

Assim que me veem, elas gritam duas vezes cada. Um grito que sai da boca e é agudo e assustado e outro do braço comprido que é grave e assustador. Os últimos gritos parecem estampidos. Apontam braços compridos na minha direção e a boca que tem no fim dos seus braços berra um estouro e árvores e chão e folhas explodem em volta de mim. – Então mais uma sequência de gritos e um deles me atinge. Tem força pra derrubar um urso e me joga no chão, longe do meu porco-do-mato. Eu me contorço e toco o ombro ferido, então uma planta morre perto de mim dando sua vida para recuperar a minha carne.

Minha montaria está agitada, guincha e urra com medo. Mas ela não quer fugir. Ela ataca quando tem medo. Criaturinha leal, forte e estúpida. Eu a deixo ir e ela avança com ferocidade. Agora o verde e o azul apontam os braços para ela. Estourando o chão onde ela passa. Eu reparo que eles precisam de tempo entre cada grito, acariciam os braços, preparam e gritam de novo. O Porco guincha irritado como nunca o vi.

Eu espero. Pou. E espero, pou, pou e corro. Um dos gritos atingiu e tombou minha montaria que grita pela última vez. Enquanto ela cai, eu recebo a força da sua morte. Meus músculos são inundados de poder, Salto muito alto e as presas do porco do mato surgem como arma em minhas mãos. O Espirito do caititu em forma de lança com dentes nas duas pontas.

Tão inesperadamente quando eu subi, desço. Giro a lança do caititu pelo ar num golpe enquanto vou caindo sobre a forma verde. A carne dele é mole quando a atinjo e eu imagino que a carne da sombra azul também seja. A lança rasga o seu peito como meus dentes rasgam a fruta. Eu me delicio com o vermelho jorrando de seu corpo. Ele espirra em meu rosto. É lindo. Sacia um pouco da minha sede por um mundo colorido. Perco muito tempo saboreando o vermelho e contemplando o prenúncio da volta das cores em meu mundo e o braço da criatura azul, sem que eu perceba, estava apontando em minha direção e grita aquele estampido horroroso, explodindo minha cabeça. Minha nuca se desfaz como madeira atingida pela pedra de esculpir. Carvão cai de minha cabeça para o chão e as brasas nele vão se apagando. O fogo dos meus olhos se esfria um pouco embaçando a minha visão. Por um lado isso diminui a força do laranja em meu mundo, mas por outro, ameaça me lançar no abismo do sono eterno.

Então, o espírito de quem me chamou finalmente aparece. Jaguaretê. Ela conta que foi morta pelo mesmo grito dos braços das cores azul e verde. Ela me fala das suas crias capturadas e da faca cortando sua pele antes mesmo dos seus olhos perderem a vida.

“Usa minha força e meu espírito contigo”. Ela diz e eu agradeço.

Minha mandíbula ferida, feita de um entrelace de tendões de madeira fina não pode ser restaurada ainda, mas o carvão da minha cabeça se reacende, lançando madeixas de fogo vivo para o alto. Tal qual uma caldeira, meus olhos se reavivam em brasas e eu sorrio um sorriso torto, mas sincero. Falo para o azul que vou vingar as crias da onça e rasgar seu couro em justiça ao que fizera. Ele não entende, minha voz é como as folhas sacudidas pelo vento e o som de troncos e galhos quebrando e caindo pela mata.

Azul não é páreo para minha velocidade e para meu poder. Eu o derrubo antes que ele possa acariciar seus braços e ele chora. É gato miando e cão ganindo. Um choro que me faz rir. É engraçado. Fico olhando, curioso. Tem medo de morrer.

Criaturinha estúpida. – falo com a voz das folhas - Sua força vira minha força. Seu espírito vira meu espírito. Não chore. Você viverá em mim para sempre.

Ele tenta segurar meus pés, mas agarra apenas meu calcanhar. Ao contrário dele, meu pé e os dedos são avessados. Um olhar de compreensão passa em seu rosto enquanto me inclino sobre ele. Seu braço se move contra mim, mas eu o arranco de seu corpo e o quebro com os dentes. Quando me aproximo do seu rosto azul vejo o fogo dos meus cabelos brilhar em seus olhos.

Quer morrer não. Mas Onça me chamou e eu acordei no fogo e então nunca volto sem as cores. Meu mundo laranja precisa delas. Sem o vermelho, meu fogo se apaga e eu morro até que o sangue e a seiva de outra criatura me acordem com a força do seu espírito e o ódio da sua vingança.

Eu mordo seu pescoço macio e cuspo a carne de gosto ruim. Gargalho e aplaudo o vermelho jorrando. É lindo. Eu danço ao redor dele, com meus pés de frente para as costas. Feliz com as cores que vão voltando. Tanta cor além do fogo. O verde da mata, o céu novamente azul e minha pele com as nuances da madeira lisa.

Pouco antes de morrer, ele engasga e sussurra “curupira”. como se falasse comigo. Eu fico imaginando o que ele dizer com isso e me abaixo a seu lado, mordo sua boca e arranco sua língua. Eu a como para entender suas palavras.

Ele me chama pelo nome que me deram e eu gosto dele, consigo repeti-lo com as palavras da folha a da casca da árvore.

Então posso voltar a dormir em paz.

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